O texto (adaptado) abaixo é do prof. Luiz Martins da Silva, um dos pesquisadores brasileiros do civic journalism. Vale a pena conhecer um pouco mais deste modelo a partir das análises deste estudioso:
Civic journalism: um gênero que no Brasil ainda não emplacou
Luiz Martins da Silva *
O Brasil está para alguns aspectos da vida social como a Terra para algumas estrelas que já não existem, mas cuja luz finalmente chega até nós. Na área da chamada Comunicação Social um assunto se presta a esta analogia. Trata-se do civic journalism, um movimento que vem se expandindo há mais de uma década e até já tem enfrentado questionamentos, mas por aqui ainda não mereceu sequer uma tradução definitiva. A mesma comparação se aplica também aos Conselhos de Comunicação e Conselhos de Imprensa. Existem até polêmicas sobre as funções, o funcionamento e a composição de tais conselhos em outros continentes, mas no Brasil essas figuras institucionais não têm saído do papel, nem por iniciativa do Estado, nem das corporações mais diretamente relacionadas, Ou seja, a sociedade civil é que terá de criá-las.
Ao pé da letra, civic journalism seria jornalismo cívico, mas o sentido mais apropriado seria o de ‘jornalismo público’, que também não é satisfatório, pois tanto pode dar a idéia de uma espécie de jornalismo chapa branca, como pode ser confrontado com a constatação tautológica de que qualquer jornalismo é público. ‘Jornalismo cidadão’ também seria uma boa maneira de transpor o conceito, mas ainda incompleta, pois a relação entre mídia e cidadania não tem dependido apenas das iniciativas da comunidade, mas sobretudo de empresas e organizações. Ou seja, tradicionalmente, o civic journalism tem sido praticado por meio de grandes projetos da iniciativa privada e não propriamente pela mídia comunitária, embora o jornalismo comunitário muito se asssemelhe aos propósitos do civic journalism.
Quando grandes jornais resolvem, por exemplo, dedicar sistematicamente parte de seu esforço de cobertura a causas públicas, estão praticando civic journalism. Quando empresas não jornalísticas resolvem financiar ou dar apoio institucional a coberturas dos mesmos assuntos, também ingressam na mesma linha. O combate às drogas e à violência urbana tem sido uma constante nas temáticas desse gênero de reportagem, embora, nos Estados Unidos, o civic journalism esteja muito associado, desde as suas origens, à formação do eleitor e ao estímulo ao voto, que para os norte-americanos é facultativo. Não basta votar, é preciso que o público assuma a responsabilidade de votar em candidatos diretamente interessados em seus problemas.
O civic journalism se distingue de uma simples campanha. Não se trata apenas de uma série de reportagens sobre um problema social, mas da adoção permanente de uma ou mais causas públicas por um veículo de comunicação. É o que tem feito o Correio Brazilense com relação as suas ‘campanhas’ de Paz no Trânsito e Eu quero paz, a não ser o Correio venha a encerrar tais coberturas especiais, encarando-as como ‘campanhas’ com início, meio e fim. A TV Globo estará fazendo civic journalism se um programa como o Globo Comunidade (que em Brasília vai ao ar todos os domingos, às sete da manhã) não vier a ser cancelado de uma hora para outra por questões de audiência, patrocínio ou simples decisão de um novo chefe de sucursal. O civic journalism caracteriza-se pela existência e manutenção de um vínculo social por parte do veículo, ou, como o definiu Carlos Eduardo Lins e Silva (revista Imprensa, janeiro de 1997), “o jornalismo cívico é um elo entre os cidadãos e os problemas da comunidade”.
O civic journalism, enquanto gênero, é uma invenção norte-americana, mas que tem sido replicado em outros países. Hoje, há numerosos centros especializados em fomentá-lo nos Estados Unidos e é um assunto com vasta indexação nos sites de busca da Internet e com centenas de páginas especializadas e que guiam o navegador interessado tanto para as instituições promotoras, quanto para uma ampla bibliografia já existente em inglês e, em menor parcela, em espanhol e português. Nos sites de busca basta procurar por public journalism, jornalismo público ou civic journalism. Uma das principais instituições do gênero vem a ser o Pew Center for Civic Journalism (www.pewcenter.org ), de Washington, criado pelo pioneiro The Pew Charitable Trusts of Philadelphia. Esta organização tomou a iniciativa, em 1933, de explorar diversas formas de encorajar os cidadãos a se envolver nas soluções de seus problemas comunitários, culminando com a formulação de um convite para que o veterano Ed Fouhy, um jornalista de tv que nas campanhas eleitorais de 1988 e 1992 promoveu debates presidenciais, estivesse à frente da iniciativa. Outra referência obrigatória é o The Poynter Institute for Media Studies (www.poynter.org). Charlote (Carolina do Norte); Madison (Wsconsin); Tallahassee (Flórida); Boston (Massachusetts); San Francisco (Califórnia); e Seattle (Washington) estão entre os principais centros onde se consolidaram experiências de jornalismo voltado para a cidadania.
Por vezes, travam-se acaloradas polêmicas em torno do civic journalism, seja em torno do berço conservador que o trouxe ao mundo (financiamentos altruístas de um poderoso industrial), seja em decorrência da visão tradicional de que o papel dos jornalistas é investigar os fatos e noticiá-los, parando aí a sua missão. Há jornalistas e empresas jornalísticas, no entanto, que não se contentam em noticiar os fatos. Eles querem também se envolver com a busca das soluções, para isso, criando laços diretos com os cidadãos, com as comunidades e com os e com as suas mobilizações. Outra forma, é o cuidado de com que grande parcela dos editores tratam as matérias jornalísticas, agregando valores sociais aos valores-notícia comuns e incorporando às matérias boxes de infomações, serviços, telefones, e-mails, sites e outros elementos úteis para que os leitores interessados tenham como procurar apoio. É o que se poderia chamar de agregar aos problemas sociais um entorno institucional. Se uma reportagem fala do alcoolismo e suas conseqüências, o serviço prestado pelo veículo ficará ainda mais completo se indicar os telefones da Associação dos Alcóolicos Anônimos e de atendimentos públicos especializados.
A fundação Pew Trust foi criada em 1948 pelos herdeiros de Joseph Newton Pew, proprietário da Sun Oil Company. Eles pretendiam financiar projetos de jornalismo que dessem ressonância às idéias do patriarca, reservando para isso uma verba de US$ 12 milhões a ser aplicada na última década. O civic journalism, no entanto, ganhou vida própria, a partir do conceito criado por David Merrit, editor-chefe do Wichita Eagle, o veículo de maior circulação no Estado do Kansas. Freqüentemente associado à direita norte-americana, o civic journalism não merece tal estigma, pois, o combate ao consumo de drogas e a redução da violência são problemas de todos, independentemente de ideologias. E quando uma causa é pública, não faz sentido falar em lobby, mas em advocacy.
*Luiz Martins da Silva coordena, na UnB, um projeto integrado de pesquisa e extensão apoiado pelo CNPq, intitulado SOS-Imprensa, também objeto de um convênio com a Universidade Católica de Brasília
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário