quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Por quê civic journalism?

“O jornal é a oração matinal do homem moderno”
Hegel

Alguns acordam com o rádio-relógio a informar as últimas notícias. Muitos ligam os aparelhos de televisão e o próprio rádio nos noticiários enquanto se arrumam ou se dirigem para mais um dia de trabalho. Quem tem tempo, toma café da manhã folheando as páginas dos jornais. Quem não tem, recebe de graça seu exemplar na porta do metrô e entre uma estação e outra, consome as informações. Se não quiser ler, pode prestar atenção nas telas instaladas nos vagões e ônibus, equipados para informar todo tipo de necessidade humana: temperatura e previsão do tempo, situação do trânsito, mercado financeiro, política, conflitos, catástrofes... Nas versões mais sofisticadas até os celulares atualizam seu portador sobre o que acontece no mundo, em tempo real. Enfim, como afirmam Martins e Luca (2006, p. 9), “há um exército de profissionais que se dedica a nos apresentar e explicar o mundo”. É destas apresentações e explicações que nasce o conhecimento da realidade que o homem assume no seu dia-a-dia.

Quando se refere especificamente ao papel do jornalismo na sociedade contemporânea, Leonardi (2005, p. 25) vai além. Afirma que, ao informar, o jornalismo dá ao ser humano a possibilidade de saber o que acontece em sociedade e de como estão sendo tratadas as questões de ordem pública. Isto, segundo o autor, é um importante passo para a democracia uma vez que garante a cidadania necessária às pessoas porque “ao tomar conhecimento das questões públicas, o cidadão pode cobrar de seus representantes o compromisso com a população”.

Entretanto, quando a grande maioria destas informações é produzida pelo e para o showjornalismo (ARBEX JR., 2001) e vêm embaladas em pacotes que, quando se espreme, sai sangue (ANGRIMANI, 1995), a imprensa perde seus dois principais papéis históricos: 1) o ideal iluminista de esclarecer os cidadãos, e 2) de ser o meio de defesa dos interesses da sociedade contra quaisquer violações ou abusos.
Foi, aliás, deste segundo item, que nasceu, na Inglaterra, no início do século XIX, a idéia de que o jornalismo poderia servir de “quarto poder” com a função de vigiar a atuação do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, sempre com vistas a proteger a sociedade civil. Mas, depois de tantas relações promíscuas entre mídia e poder (ARBEX JR., 2003), é fácil entender posicionamentos como o que se segue:

Talvez nada indique de forma mais clara o desgaste do “quarto poder” do que o fato de agora se considerar essencial a criação de um quinto , a fim de examinar as práticas jornalísticas predominantes nos empreendimentos midiáticos e proteger o cidadão delas (MARTINS, LUCA, 2006, p. 12).

A questão que se coloca na atualidade é como ter, ao mesmo tempo, uma tecnologia que amplia de forma inimaginável a circulação de dados elevando este momento à era da sociedade da informação e, ao mesmo tempo, assistir à atividade jornalística, especialmente a brasileira, reduzida a grandes corporações que determinam a lógica do mercado – ou pelo menos a pauta dele -, numa fase em que atravessa um período de descrédito significativo deixando, na maior parte da população, uma sensação de falta de confiança e desinformação, apesar da avalanche de notícias que alcança os brasileiros nas vinte e quatro horas do dia, mas que o torna impassível diante da maioria dos fatos.

É sintomático que se tenham multiplicado os fóruns de discussão a respeito da qualidade da informação difundida pela imprensa e sua crescente mercantilização, numa tentativa de construir visões alternativas à instaurada pelos grandes grupos [...] mas isto está longe de significar que a imprensa deva (ou possa) abrir mão da ética e de suas responsabilidades sociais (MARTINS, LUCA, 2006, P. 12-13).


Este pensamento certamente foi gerado após uma série de ocorrências ao longo das últimas décadas, entre eles o fato de os temas abordados e as opiniões apresentadas na esmagadora maioria dos veículos de comunicação responder muito mais aos interesses de grandes grupos políticos e econômicos do que aos desejos coletivos da sociedade (MORETZSOHN, 2007).

Houve, também, um processo de empobrecimento intelectual das pautas, com a publicação de assuntos que mais distraem do que informam. E pior e mais preocupante: a simplificação do conteúdo delas para atender ao público “Homer Simpson ”.
A verdade é que muitas vezes os assuntos escolhidos para serem noticiados e comentados sequer são importantes para os leitores, grupo geralmente percebido apenas como mais um consumidor entre uma página e outra de propaganda. E por último é preciso ressaltar:

Outro ponto a ser destacado é a grande importância atribuída ao presente [...] que tem provocado o aprofundamento da descontextualização e fragmentação da informação. A velocidade com que as notícias se sucedem e se sobrepõem acaba gerando a tirania do último informe, contribuindo poderosamente para que o importante de hoje esteja esquecido na edição da noite ou, no máximo, na de amanhã. Predominam, portanto a superficialidade, a rapidez e o acúmulo de dados, sem que o leitor tenha oportunidade efetiva de conhecer (MARTINS, LUCA, 2006, p. 14).

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